Há apenas cinco anos, a palavra "Ozempic" era desconhecida fora das consultas de endocrinologia. Hoje aparece em manchetes de jornais, conversas de WhatsApp e nos trending topics do TikTok. A semaglutida —o princípio ativo por trás do Ozempic e Wegovy— desencadeou um debate sem precedentes sobre o que significa perder peso, o que significa ter fome e que papel a nutrição deve desempenhar quando um fármaco pode silenciar o apetite de maneiras que a força de vontade nunca conseguiu. Mas, junto ao entusiasmo, surge uma preocupação crescente entre nutricionistas e fisiologistas: nem toda a perda de peso produzida por esses medicamentos é gordura. Uma parte significativa, como demonstram os ensaios clínicos, pode ser músculo.
O que são os GLP-1 e por que mudaram as regras do jogo
O GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) é um hormônio que o corpo produz naturalmente após comer. Seu trabalho é múltiplo: estimula a liberação de insulina, freia o glucagon, retarda o esvaziamento gástrico e, crucialmente, envia sinais ao cérebro para indicar que você já está saciado. Os fármacos agonistas do receptor GLP-1 —semaglutida (Ozempic, Wegovy), liraglutida (Saxenda) e tirzepatida (Mounjaro)— imitam e amplificam esse sinal de forma sustentada, muito além do que o hormônio natural pode fazer por si só.

O que torna esses fármacos especiais não é apenas sua eficácia —o ensaio STEP 1 mostrou que a semaglutida 2.4 mg reduz o peso corporal em 14,9 % em média, em comparação com 2,4 % do placebo em 68 semanas, com supervisão de estilo de vida em ambos os grupos—, mas o tipo de experiência que geram em quem os toma. Os pacientes não falam em "comer menos com esforço". Falam de algo mais profundo: a fome, tal como a conheciam, simplesmente desaparece. E isso, para muitas pessoas que há décadas lutam contra o peso, pode ser transformador.
A fome reescrita: o que realmente muda no cérebro
A experiência da fome humana é extraordinariamente complexa. Não se resume a um estômago vazio: intervêm o hipotálamo, o sistema de recompensa dopaminérgico, o nervo vago e dezenas de hormônios em um diálogo constante. Os GLP-1 atuam especialmente na área postrema e no núcleo arqueado do hipotálamo, regiões que regulam o apetite homeostático, mas também têm efeito sobre o núcleo accumbens —o centro do prazer cerebral—, reduzindo o apelo emocional da comida altamente palatável.
O resultado é que muitos usuários descrevem que alimentos que antes eram irresistíveis —uma pizza, um sorvete, um saco de batatas fritas— simplesmente deixam de ter o mesmo poder sobre eles. Não é que estejam fazendo um esforço para resistir: é que o desejo diminuiu. Para muitas pessoas com obesidade crônica que durante décadas lutaram contra aquela voz interior que pede mais, esta experiência pode parecer quase libertadora. E isso, por sua vez, está mudando radicalmente a narrativa cultural sobre o peso corporal, a disciplina pessoal e a própria origem do comer em excesso.
O preço oculto: a perda de massa muscular
É aqui que a conversa se complica. Quando o corpo perde peso rapidamente —seja por dieta restritiva, cirurgia bariátrica ou medicamentos— não perde apenas gordura. Perde também tecido magro, ou seja, músculo. E os dados dos ensaios clínicos com GLP-1 acenderam os alarmes na comunidade científica.

Os ensaios STEP 1 e SUSTAIN 8 de semaglutida revelaram que aproximadamente entre 39 e 40% do peso total perdido pelos participantes correspondia a massa magra. Uma meta-análise publicada em 2024 que analisou 22 ensaios clínicos randomizados com 2.258 participantes confirmou que, em média, cerca de 25% da perda de peso total com agonistas GLP-1 corresponde a massa muscular. Não são números insignificantes. Em uma pessoa que perde 15 kg com semaglutida, isso pode representar entre 3,75 e 6 kg de músculo perdido.
O músculo não é apenas uma questão de aparência física. É o órgão metabólico mais importante do corpo: regula a glicemia, protege as articulações, sustenta a função imune e é um dos principais preditores de longevidade funcional. Perder massa muscular de forma acelerada, especialmente em pessoas com mais de 50 anos, aumenta o risco de sarcopenia —a perda progressiva de músculo associada ao envelhecimento— e de fragilidade a longo prazo.
É isso que a inanição faz: você perde quantidades iguais de músculo e gordura. E a sarcopenia —a perda de massa muscular— é uma marca do envelhecimento e da morte prematura.
Os dados que preocupam: quanto peso se perde e do que é feito
Quanto peso se perde realmente com semaglutida, e do que é composto esse peso? O seguinte gráfico resume os resultados do ensaio STEP 1 —o estudo pivotal mais citado de semaglutida 2.4 mg para perda de peso— e reflete o dado de composição corporal que os próprios investigadores documentaram em seus resultados.

O problema não é que os GLP-1 não funcionem. Claramente, funcionam. O problema é que a perda de peso que geram, sem as estratégias nutricionais adequadas, pode comprometer seriamente a composição corporal. Uma pessoa pode atingir seu "peso ideal" na balança enquanto perde uma quantidade preocupante de músculo. Os investigadores já têm um nome para este fenómeno: thin fat ou "magro-obeso metabólico" —magro na balança, mas metabolicamente frágil por dentro.
O que dizem os nutricionistas: o músculo como nova prioridade
Diante deste cenário, os dietistas-nutricionistas reagiram com rapidez e clareza. A sua mensagem é unânime: se toma um GLP-1, a proteína e o treino de força não são opcionais, são parte do tratamento. As diretrizes clínicas mais recentes apontam para consumir entre 1,2 e 1,6 g de proteína por quilograma de peso corporal por dia durante o tratamento, quantidades que, paradoxalmente, são difíceis de atingir quando o apetite está suprimido. Aí reside o desafio mais prático: o fármaco silencia a fome, e com ela, muitas vezes, também a vontade de comer proteína suficiente para proteger o músculo.

Os profissionais de nutrição também apontam outro ângulo que muitas vezes é ignorado: a qualidade do que se come nos momentos em que se come. Com o apetite reduzido, cada ingestão tem que carregar o máximo valor nutricional possível. Não há espaço para calorias vazias. O corpo, que recebe menos energia total, precisa que essa energia venha acompanhada de proteína completa, micronutrientes essenciais e fibra suficiente para manter a saúde intestinal. Neste sentido, a supervisão nutricional ativa durante o tratamento com GLP-1 não é um luxo nem um complemento: é parte indispensável do protocolo terapêutico.
Conclusão: um medicamento poderoso que precisa de companhia
Os GLP-1 são, sem dúvida, a ferramenta farmacológica mais transformadora no tratamento da obesidade há décadas. Redefinem a fome de uma forma que nenhuma dieta havia conseguido, e seus resultados na redução de peso, controle glicêmico e risco cardiovascular são reais e clinicamente relevantes. Mas a ciência também é clara em algo fundamental: perder peso não é sinônimo de ganhar saúde se essa perda for acompanhada por uma quantidade significativa de massa muscular.
Os nutricionistas não são contra o Ozempic. São contra usá-lo sozinho. A combinação de proteína adequada, treinamento de força progressivo e acompanhamento profissional não é um extra para quem usa GLP-1: é a diferença entre perder peso de uma forma que melhore sua saúde a longo prazo, ou perder peso de uma forma que o fragilize. O medicamento pode silenciar a fome. Mas preservar o músculo, cuidar da composição corporal e construir hábitos que durem quando o tratamento é interrompido — isso ainda requer estratégia, contexto e, acima de tudo, um profissional de nutrição ao seu lado.